At My Table – The Widow

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At My Table – The Widow

Era hoje o aniversário, a celebração íntima de um estatuto que há uns anos surgira, mas que já antes era seu. Não raro se enterram almas antes dos corpos, por vezes na derivação de venenos auto-infligidos, maneiras várias de encontrar a morte sem a falência das artérias, numa longa aprendizagem da demência. Outras, como a de que julgara prenhe, medulam-se no ódio que nasce da desistência. Casara nova e rendida, não ao homem, mas ao mundo, às vicissitudes que desarmam crenças e formatam vontades. Do amor, apenas a memória da mãe persistia, quando ainda dócil e sem os acessos de loucura que a levavam semi-nua e ululante às ruas, movida por delírios pagãos de fraternidade e tomas de ácidos. Crescera a temer o afecto, confundindo-o com demência. Forjara-se, portanto, em temperaturas de menor amplitude, julgando-se, por isso, a salvo.  Não tardou a entender o erro, as exigências do amor que lhe era devotado agastavam-na, ainda que se prestasse ao fingimento. Fazia o esforço diário que compete a quem aceita um compromisso e entende o valor de tal conceito, porém, a sua incapacidade de rendição tornara-a lapidar, e numa agenda interior ia vulcanizando o intruso, lacrando-lhe qualquer acesso. Não que ele o percebesse, ou assim escolhera viver a princípio, deleitavam-no as formas concupiscentes, o mistério da ardósia do cabelo, a inquietude do olhar, a placidez dos modos. Vivia feliz, na sua adoração à madona que o tolhera. Só mais tarde a vira em rocha, e todas as arestas da sua crueldade o devastaram. Soubera num acaso, uma tarde inesperadamente livre que decidira usar surpreendo-a. Chegara à porta e percebera que a chave não rodava. Como a queria surpreender, deu a volta a casa a fim de entrar pela garagem, mas estacou à janela ante a percepção de dois vultos.  E foi assim que os viu, a ela, a boca aberta em êxtase, os olhos líquidos e lânguidos, o corpo sentado na mesa da sala, exposto às mãos que o devassavam. Não houve um som que lhe denunciasse a presença, sendo célere na retirada. Horas depois, a polícia bateu à porta da recém viúva. No seu rosto, a máscara da incompreensão ganhava dimensões grotescas, a ironia golpeava-a abrindo-lhe fendas no lacre. Um engano oceânico, qual fossa inter-continental fora a causa de tamanha miséria, e a confessa homicida endoidara de dor, na culpa dos que se descobrem capazes de sentir apenas ante o espigão da perda.  

O funeral fora um fardo, suportara-o num acto de auto-flagelação entre intermitentes estados de consciência. A viuvez era outra, era acima de tudo viúva de si mesma, compreendia-a, agora, a máscara, um despertar tardio e punitivo cuja lâmina abraçava. Chegada a casa, poisou a urna em cima da mesa do crime. Uma qualquer satisfação malévola brotava-lhe do peito, almejava a catarse de um retorno polar, e um ódio antigo adensava-se nas entranhas. Um esgar torpe perpassava-lhe a boca, enquanto olhava para urna. Toda uma pluralidade de emoções agitava-lhe o espírito e delas era prisioneira. Oscilava entre a exaltação criminosa do pecado, e a certeza de um Inferno privado que dele surgira. Culpava assim o morto por lhe despertar o amor apenas depois do uso do que em si era hediondo, tornando-se depois este sentir ainda mais denso pela tragédia. Fora então quase induzida a um estado hipnótico, e demonizando-se, abriu a urna espalhando as cinzas onde o seu corpo antes estivera. Pegou então num pincel, remexeu as cinzas, e num assomo de loucura pintou com elas o rosto, para que delas renascesse, por fim, noutra imagem.

Texto de Susana Berardo

Styling – Leonor Luís | Make-up – Vanessa Kuzer


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