Girl with gas mask, and old phone

Projecto Toxic – Hidra

Saiu do banho com a ideia formada: de hoje não passaria. Ele não poderia manter a ostentação do silêncio. Era como se esta forma de nada dizer, fosse o meio encontrado de a punir. A noite tinha sido passada às voltas com razões. O porquê não aparecia e ela começava a ganhar resistências à lógica. Cada ser guarda em si uma hidra. A dela, composta por dez cabeças corroídas, começava a tomar conta de si. À vez, entravam pela cabeça adentro e mostravam de que matéria eram feitas.

O ódio era o caldo primordial em que cozia, de corpo ainda a pingar, quando pegou no telefone. Aguardava os gritos de aviso que lhe iriam dizer não. Ele não a atendia. “Olá, ligou para o Adolfo. Neste momento, não me é possível atender. Deixe a sua mensagem. Ligar-lhe-ei logo que me for possível.” Atirou o telefone para longe, num daqueles ataques de demonstração de força para uma plateia silenciosa de fotografias.
Outra cabeça avançava pelo pescoço acima e ela era tomada pela mágoa. Levantou-se do sofá onde se havia sentado e agora ardia. O nada servia a humidade que ainda lhe mantinha a cabeça fria. Por dentro, o miolo ebulia em borbotões de memórias. Revia os passos dados nos últimos meses, após o fim da relação. Em três anos, já perdera a conta às chamadas, cartas, presentes enviados para a repartição onde ele (sabia-o ela, porque este nunca houvera admitido) pavoneava papéis de vários tipos, só para entabular conversas com gente cujas glândulas mamárias fossem além da copa B, aquela que vestia.

Depositou os olhos rasos de água na fotografia onde eram ainda felizes. Tinha sido num verão já distante, tirada numa praia até aí desconhecida. O flash tinha piscado poucas horas antes de começar a primeira guerra entre o casal. Muito pior que a primeira mundial, porque a geografia se limitava a um rectângulo aconchegado em lençóis estéreis de hospedaria. O mote? Bem… O mote, nunca o diria de viva voz. O que a irritou naquela noite, foi a falta de cuidado com que a tocou. Avançou sem qualquer aviso, como se o seu corpo fosse um mero objecto para a finalidade precisa de lhe dar prazer. Os olhos dele ardiam e os dela faiscavam de indignação.

- Pensas que eu sou uma das tuas amigas? Pára, já!

- Mas quais amigas? Eu gosto de ti, Isabel. Desejo-te, não vês?

Ela via o desejo, sim. Mas não por si. Era apenas um corpo para o satisfazer. Disse tudo o que havia para dizer sobre o assunto, mas sem nunca tocar na verdadeira razão que se resumia ao ímpeto mais vigoroso naquele dia. Longas foram as horas no colchão, a destilar vários venenos macerados no fígado. O monólogo só terminou quando um ronco entediado ecoou nas paredes do quarto. 

Depois das férias, veio o Natal, de presentes a pedido. Um relógio oferecido sem convicção, disse ela, atirando contra a lareira acesa, a caixa de griffe onde perecia uma camisa que lhe custou um dinheirão e a que ele tanto tinha gabado o gosto. Apregoava a oferenda em combustão, de sangue a ferver e ele, abanando a cabeça e encolhendo os ombros, saiu porta fora esquecendo as luzes, o espírito devido à época e a paciência, deixada junto às cinzas que eram agora o presente natalício.
Quatro Natais seguidos terminariam invariavelmente com saídas intempestivas, alguns verões marcados pelo atirar de pratos ao chão, uns quantos amigos perdidos no meio da discussão permanente por diversos motivos, do porque sim ao porque não.

No dia de São Valentim, Adolfo, o tirano cruel e opressivo, deixou-a sozinha na mesa do restaurante, enquanto as duas velas na mesa bruxuleavam. Ela entrou em rota de colisão com o homem, com ela e com ele mundo. Pagou a conta e saiu, vagueou pelas ruas toda a noite. A manhã a raiar e encostou-se ao portão da casa onde Adolfo dormia. Foi o dia inicial da perseguição, rondando a casa, a família e os amigos. Nos três anos seguintes, a vitimização foi a palavra de ordem. Tantas vezes explicou o sucedido, tanto lhe acrescentou pontos negativos a seu favor e contra o outro, que já ninguém compreendia como Adolfo tivera coragem para fazer aquilo, porque Isabel era um doce, apesar de implicativa, arrogante e por vezes injusta. Mas todos temos os nossos defeitos, diziam.

Voltou a pegar no telefone, carregando nas teclas cujos números, apertados milhares de vezes, tinham perdido o relevo, a cor e a eficiente função, de tantas raivas encolhidos. Susteve a respiração, esperando que do outro lado da linha não atendesse a gravação, mas antes um Adolfo compungido, arrependido e amantíssimo. Com esta, era a milionésima vez que tentava reatar a equação perdida à partida. Mas apenas o sinal de informação de que do outro lado havia um telefone disponível a mantinha na obstinação de ininterruptamente tentar.

Outra cabeça da hidra disforme lhe tomava conta das meninges. Agora, a da autocomiseração, relembrando os actos abnegados e de tão benigna índole, que não percebia como não tinha um homem a beijar a sua mão. A boca de Adolfo a lambuzar-lhe os dedos, pedindo perdão por todos os actos irreflectidos. Sim, porque o senhor revelara-se uma besta, muito pouco preocupado com aquilo que ela queria, as suas aspirações e mais profundos desejos. No fundo, ela era a vítima nas mãos de um carrasco cruel e vingativo.

Se assim era o que queria, assim teria. Acabava aqui o jogo de reaproximação. Afinal, era ele quem perdia. E se para ela estivesse reservado um homem que a ouvisse, quisesse e sentisse, tal qual era? Se existisse por aí, numa qualquer esquina, alguém que apenas se preocupasse em zelar por aquilo que queria e como queria? Talvez, depois de três anos de tentativas e asfixias, fosse o tempo de virar a estação. Talvez, porque não? Desta vez iria deixar de ligar. Tinha de ter algum amor próprio, que diabo!

Vestiu-se, perfumou-se, colocou a máscara de sedução. Saiu para a rua, em busca de um homem novo, um renovado motivo para o polvo que dentro dela vivia grassar, grassar…

Marta Tavares

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